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Flamengo e Palmeiras: quando o poder econômico e trabalhos de excelência se encontram
Imposição do Palmeiras e exibição do Flamengo fazem da última segunda-feira um dia simbólico sobre o momento do futebol brasileiro
GloboEsporte.com / Carlos Eduardo Mansur
Desde que passou a ter 38 rodadas, em 2006, o Campeonato Brasileiro precisou esperar oito anos até que, em 2014, o Cruzeiro fosse o primeiro time a vencer o torneio com 80 pontos. Desde então, o desempenho necessário para erguer a taça subiu.
Caso sejam mantidos os atuais 76% de aproveitamento do Flamengo, neste momento o líder do torneio, o Brasileiro de 2025 terá um campeão com algo entre 86 e 87 pontos. No seu encalço, o rubro-negro tem um Palmeiras que, até aqui, conquistou 73% dos pontos. É capaz de ampliar seus números como fez em outras arrancadas recentes mas, ainda que não o faça, terminaria o torneio com 83 ou 84 pontos. Para que se tenha uma ideia, até hoje nenhum vice-campeão brasileiro, no atual formato da competição com 20 clubes, ultrapassou os 74 pontos. Caso o campeão de 2025 confirme a perspectiva de superar os 80 pontos, esta será a oitava vez que a marca será batida nas últimas 12 edições. É uma transformação.
Neste aspecto, a noite de segunda-feira pareceu um símbolo do futebol atual, da sua hierarquia – mesmo num campeonato em que ainda não é possível descartar o Cruzeiro como candidato. Os encontros dos dois líderes técnicos e econômicos do país no momento com duas equipes que lutam contra o rebaixamento exibiu diferenças gritantes, ainda que o Maracanã tenha visto algo num nível acima, um espetáculo de rara beleza – e também de desigualdade.
É um caminho aparentemente sem volta no futebol atual, visto em qualquer liga e em qualquer parte do mundo. Porque a diversificação das fontes de receita, das possibilidades comerciais dos clubes, vai muito além de eventuais acordos de divisão de cotas de TV: está muito mais ligada ao alcance, ao tamanho de torcida, à capacidade de mobilização de gente. Neste aspecto, é natural que o Flamengo se firme como o maior arrecadador do país, embora a realidade brasileira abra espaço para que outros clubes realizem melhor seu potencial – caso decida mudar seus rumos e enfrentar seu enorme endividamento, o Corinthians é um candidato, por exemplo.
Mas Flamengo e Palmeiras são exemplos de que é possível olhar para o campo de futebol e enxergar diferentes aspectos. É possível refletir sobre os caminhos do futebol, sobre a concentração de dinheiro e eventuais disparidades – são os dois donos de receitas bilionárias do país e, aparentemente, os dois únicos que realizam grandes investimentos de forma claramente sustentável. No entanto, também é possível, e talvez necessário, enxergar beleza, competência técnica, trabalhos elogiáveis.
No Allianz Parque, o conforto com que o Palmeiras venceu o Sport não era somente o sinal da diferença entre o vice-líder e o último colocado. Parecia um aviso de que um fenômeno visto em outras temporadas está se repetindo. Após colher resultados sem transmitir as melhores sensações sobre seu jogo, em dado momento do ano Abel Ferreira olha para o seu elenco e enxerga uma nova possibilidade, uma guinada tática. Já aconteceu com o encaixe de Endrick, com os três zagueiros, mas neste ano ocorre com o entendimento entre Flaco López e Vítor Roque.
O Palmeiras consegue fazer o Flamengo, ao menos neste momento, ter uma sensação: ganhar o campeonato exigirá manter o ritmo atual. Em qualquer outro ano, um clube com a pontuação rubro-negra teria mais conforto na liderança. Pode parecer paradoxal, mas no ano em que fez a maior reforma na espinha dorsal de seu time, em que realiza gastos elevadíssimos, o alviverde tira proveito da estabilidade. Porque o condutor do processo é o mesmo Abel Ferreira que, há cinco anos, tem pleno conhecimento do elenco e do clube.
No Maracanã, o Flamengo que se apresentou em modo exibição foi a mais bela versão de um time que reúne um elenco poderosíssimo – formado com muito dinheiro – e um trabalho de excelência. Claro que o Vitória – assim como o Sport – não ofereceu a melhor das resistências, mas o jogo foi mais do que um 8 a 0 acachapante. A construção do placar mostrou um enorme repertório de um time que tem um compromisso com o jogo, com o controle.
O Flamengo de Filipe Luís, que só levou nove gols no campeonato e tem de saldo um número que nenhuma outra equipe tem de gols marcados, fez seus dois primeiros gols a partir de sua excelente pressão ofensiva. Marcou o quarto gol quando o Vitória tentou pressioná-lo em sua saída de bola, e fez outros tantos a partir das combinações entre seus jogadores. Claro que as ideias de um treinador são melhor executadas por jogadores de alto nível, e estamos diante, provavelmente, do melhor elenco – em quantidade de jogadores acima da média – que o Flamengo já teve. Na segunda-feira, iniciaram a partida seis jogadores que já disputaram Copa do Mundo. Mas não são poucos os times estelares que sucumbem sem um técnico que parece preparado para uma imensa trajetória na carreira.
O Campeonato Brasileiro ainda não permite que a vida dos mais ricos seja, como rotina, o que se viu na segunda-feira de Flamengo e Palmeiras. Mas é possível analisar o cenário, talvez até se preocupar com a disparidade, e ao mesmo tempo desfrutar dos grandes times do país.
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