Editorias / Política
Fundador do PSOL em MS, candidato ao governo quer ampliar alcance da esquerda
Lucien Rezende propõe moradia para idosos, ensino integral e delegacias 24 horas
Kamila Alcântara / Campo Grande News
Assumir-se socialista em um Estado de perfil conservador não é tarefa simples, reconhece Lucien Rezende, candidato do PSOL ao Governo de Mato Grosso do Sul. Aos 62 anos e após duas décadas de militância no partido, ele afirma que ainda encontra resistência nas ruas, mas aposta no diálogo para fazer com que suas propostas ultrapassem a bolha da esquerda.
“Não é fácil fazer política em um Estado conservador sendo socialista e do campo da esquerda. Mas temos furado essa bolha, conseguido dialogar e sido muito bem recebidos em vários municípios', afirmou em entrevista ao Campo Grande News.
Segundo Lucien, a polarização política não está restrita às redes sociais e aparece diretamente nas conversas com os eleitores. Há pessoas, relata, que demonstram simpatia por suas propostas, mas rejeitam determinados candidatos ou partidos ligados ao mesmo campo político.
“Tem gente que fala: ‘Até gosto das suas propostas, posso votar em você, mas nesse aqui eu não voto [Lula]’. A polarização está na rua, assim como está dentro das famílias. A gente precisa aprender a conviver com o diferente', disse.
A resistência, conforme o candidato, tem sido maior na periferia de Campo Grande do que em alguns municípios do interior. Mesmo diante das dificuldades, ele rejeita a ideia de que a disputa esteja definida antecipadamente.
O jogo só acaba quando as urnas são abertas. No primeiro turno, o eleitor deve votar no projeto com o qual mais se identifica. No segundo, estarão colocados dois projetos', afirmou.
Pequeno produtor rural no município de Terenos, Lucien participou da coleta de assinaturas para a criação do PSOL, fundado há 21 anos. Ele nunca foi filiado a outra legenda e compara a construção do partido à criação de um filho.
O candidato também foi secretário municipal durante os quatro anos da gestão do PSOL em Ribas do Rio Pardo. Agora, apresenta uma plataforma voltada principalmente à população de baixa renda, aos idosos, às mulheres, aos povos indígenas, às comunidades tradicionais e aos trabalhadores.
Moradia para idosos - Entre as prioridades apresentadas está a criação de um programa habitacional destinado às pessoas com mais de 60 anos. Lucien argumenta que parte da população idosa trabalhou durante toda a vida, mas chegou à terceira idade sem conseguir comprar a casa própria.
“Uma pessoa que trabalhou até os 60, 65 ou 70 anos e não conseguiu adquirir sua casa provavelmente não conseguirá daqui para a frente. Precisa haver uma mão amiga do Estado, com um programa sério para atender essa população', declarou.
Ele também defende a ampliação das políticas habitacionais para reduzir o déficit de moradias em Mato Grosso do Sul. Para o candidato, deixar de pagar aluguel permitiria que as famílias destinassem parte maior da renda à alimentação, à saúde e a outras necessidades básicas.
Ensino integral e salários - Na educação, Lucien propõe ampliar o ensino em período integral e equiparar a remuneração dos professores temporários à dos efetivos quando ambos exercerem as mesmas funções e tiverem a mesma carga de trabalho.
“Não sou contra o efetivo, que fez o concurso e passou. Mas o contratado trabalha da mesma forma e recebe menos. Quero a equiparação salarial', afirmou.
A valorização, segundo ele, deve alcançar também os servidores administrativos das escolas. O plano citado pelo candidato inclui melhoria da merenda, climatização das salas de aula e expansão da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) para mais municípios.
A proposta é aproximar o ensino superior e a formação profissional dos jovens que vivem longe de Campo Grande e dos principais centros econômicos do Estado. “Minha preocupação é com o jovem daquela cidade pequena e distante da Capital. Como ele vai entrar na vida profissional? Que emprego terá?', questionou.
Incentivos para geração de empregos - Lucien afirma que não pretende impedir a instalação de grandes empresas nem eliminar todos os incentivos fiscais. A proposta é condicionar os benefícios a contrapartidas sociais e direcionar novos empreendimentos para regiões com poucas oportunidades de trabalho.
“Se uma empresa chegar e quiser discutir incentivo, podemos conceder, mas também queremos que ela se instale em uma região que precisa de emprego, como o norte do Estado', explicou.
O candidato defende que a chegada dos empreendimentos seja acompanhada por cursos de qualificação oferecidos pela UEMS e por outras instituições públicas. O objetivo seria preparar moradores das próprias cidades para ocupar os postos de trabalho criados.
Ele cita como exemplo a expansão da indústria de celulose na região leste. Na avaliação do candidato, o Estado precisa identificar antecipadamente as profissões que serão exigidas e formar os trabalhadores antes do início das operações.
Rota Bioceânica - A manutenção das estradas vicinais e a substituição de pontes de madeira também aparecem entre as propostas. Lucien diz que a infraestrutura rural precisa receber atenção tanto para garantir o deslocamento da população quanto para permitir o escoamento da produção dos pequenos proprietários.
Ele também defende investimentos para preparar Mato Grosso do Sul para o aumento da circulação de cargas provocado pela Rota Bioceânica. “Não são apenas o corredor bioceânico e as grandes rodovias. As estradas vicinais e as pontes também precisam estar bem cuidadas', afirmou.
Outra proposta é ampliar o acesso à água potável nos assentamentos rurais, inclusive com a expansão das redes da Sanesul (Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul) sempre que houver viabilidade.
Aluguel social e fim do feminicídios - Para enfrentar a violência contra as mulheres, Lucien propõe que delegacias especializadas funcionem 24 horas, inclusive nos fins de semana. Ele também defende a concessão de aluguel social por pelo menos um ano às vítimas que precisem deixar a residência onde vivem com o agressor.
“Muitas vezes, a mulher continua perto do opressor porque não tem recursos para pagar um aluguel e sair com os filhos. O aluguel social permitiria que ela reorganizasse a vida longe do agressor', disse.
O candidato acrescenta que agentes comunitários de saúde poderiam receber treinamento para identificar indícios de violência durante as visitas domiciliares. Ele também propõe abordar nas escolas temas relacionados ao respeito às mulheres e à prevenção do machismo.
A preocupação com o assunto tem relação com a própria história de Lucien. Ele conta que cresceu em uma família na qual as tarefas domésticas eram consideradas obrigação exclusiva das mulheres e afirma que a formação política o levou a rever esse comportamento.
Nasci em um berço muito machista. Se eu e meu irmão estivéssemos lavando roupa ou perto do fogão, apanhávamos. Dentro do PSOL, fui me reciclando como homem. Hoje, o tratamento com os meus filhos é totalmente diferente', relatou.
Câmeras corporais e fronteiras - Na segurança pública, Lucien defende a adoção de câmeras corporais nos uniformes dos policiais. Segundo ele, o equipamento pode proteger tanto os agentes quanto as pessoas abordadas.
O candidato também propõe utilizar drones para reforçar a fiscalização na extensa faixa de fronteira de Mato Grosso do Sul. A medida seria acompanhada por investimentos na preparação dos policiais e no acompanhamento da saúde mental dos profissionais.
Para Lucien, a política de segurança também deve incluir atividades culturais, esportivas e de lazer nas periferias, principalmente para crianças e adolescentes.
“Segurança não é apenas armamento e preparo policial. Também é levar cultura e lazer à periferia, oferecer atividades para a juventude e evitar que o tráfico ocupe o espaço deixado pelo Estado', concluiu.
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